Estes dias, relendo, ou melhor, re-ouvindo Dom Casmurro, percebi um detalhe interessante que alguém já deve ter notado, mas que eu nunca havia lido nada a respeito. Machado de Assis chegou às mesmas conclusões de Freud numa matéria que é uma das bases da psicanálise: a interpretação dos sonhos. E, ainda mais coincidentemente, os dois chegaram a esta conclusão no mesmo ano de 1899 em livros publicados em 1900.
Em certa parte do livro, Bentinho, o personagem-narrador, se vê numa encruzilhada, num dilema entre o amor e o seminário. Fora prometido por sua mãe ao seminário, mas descobriu que amava sua vizinha e amiga de infância, Capitu. Digo “descobriu” porque ele mesmo não sabia até que José Dias, o agregado da família, lhe denunciou a si próprio. Uma vez que se viu amando Capitu, Bentinho se angustiou com a idéia de ser padre e, como as duas condições são inconciliáveis, o casal adolescente se pôs a pensar em formas de evitar o destino eclesiástico de Bentinho.
Acudiu à Capitu a idéia de interpelar José Dias, uma vez que este tinha influência sobre a mãe de Bentinho, e torná-lo em aliado. Bentinho foi a José Dias e, no Passeio Público do Rio de Janeiro, lhe falou de sua angústia, sem revelar seu amor por Capitu. Disse apenas que não tinha inclinação para padre e queria ajuda para convencer sua mãe a abandonar sua resolução. A família de Bentinho morava no Rio de Janeiro, a capital do império, mas ele se propôs a estudar leis em São Paulo, que, à época em que se passa este trecho do romance, não passava de uma pequena cidade, se isso agradasse sua mãe. José Dias então imaginou Bentinho estudando Direito, mas na Europa, tendo este àquele como fiel escudeiro no Velho Mundo. Na volta pra casa, Bentinho e José Dias encontraram o imperador D. Pedro II, que voltava da Escola de Medicina.
Então passa pela cabeça de Bentinho uma idéia fantástica: ir ao Imperador e pedir sua intervenção. Se o Imperador solicitasse a sua mãe que o liberasse do destino eclesiástico, esta, por certo, o atenderia. Bentinho imaginou o Imperador indo a sua casa e falando a sua mãe, dizendo-lhe que seria melhor meter Bentinho na Escola de Medicina, que esta já contava com professores entre os melhores do mundo, que Medicina era uma bela profissão, que dava saúde aos outros, e outros argumentos mais. Sua mãe mudaria sua resolução, então, e o mandaria estudar Medicina.
O próprio Bentinho interpreta este sonho:
“... aquela lembrança do Imperador acerca da medicina
não era mais que a sugestão da minha pouca vontade
de sair do Rio de Janeiro. Os sonhos do acordado
são como os outros sonhos, tecem-se pelo desenho das
nossas inclinações e das nossas recordações...”.
Comparemos agora com algumas das conclusões de Freud em seu livro “A interpretação dos sonhos”:
- Os sonhos representam realizações de desejos;
- Parte dos materiais que compõem os sonhos são nossas recordações imediatas, as sensações do dia anterior (restos diurnos), por exemplo;
- Os sonhos têm um conteúdo manifesto e outro latente, ou seja, um conteúdo visível e que pode ser lembrado e descrito e outro oculto, que só pode ser descoberto através de um processo de interpretação.
Comparando as conclusões de Freud com as de Machado de Assis, através de Bentinho, podemos perceber que são bastante próximas:
- O conteúdo manifesto do sonho de Bentinho – a visita do imperador, sua interpelação junto a sua mãe, a sugestão para que estude Medicina – é uma versão criada pelo “trabalho do sonho” (mecanismo psíquico responsável por esta transformação) para seu conteúdo latente, ou seja, a vontade de continuar no Rio de Janeiro ao lado de Capitu;
- Este pensamento surge em Bentinho após encontrar o Imperador voltando da Escola de Medicina, ou seja, o sonho é “disparado” a partir da sensação despertada pelo encontro com o imperador;
- O sonho de Bentinho representava a realização do seu desejo de ficar junto a Capitu.
É fato que Freud disserta sobre os sonhos que temos quando dormimos enquanto, em Dom Casmurro, Bentinho disserta sobre um sonho que teve acordado. Apesar disso, não deixam de ser interessantes a semelhança entre os dois e as conclusões de Bentinho. Soma-se a isso sua expressão: “Os sonhos do acordado são como os outros sonhos...”.
Machado de Assis, em Dom Casmurro, formulou uma afirmação e um exemplo fictício que casam perfeitamente com as conclusões sobre a teoria de interpretação dos sonhos formulada por Freud e que serve como uma das principais bases da psicanálise até hoje.
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